setembro de 2022

Maria Judite de Carvalho

Maria Judite de Carvalho nasceu no dia 18 de setembro de 1921, em Lisboa, cidade onde virá a falecer, em1998. Foi uma escritora unanimemente considerada como uma das vozes femininas mais importantes da literatura nacional do século XX, autora de contos, novelas, crónicas, assim como de uma peça de teatro e de um livro de poesia. Trabalhou nos periódicos Diário de Lisboa, Diário Popular, Diário de Notícias e O Jornal. Foi casada com o escritor Urbano Tavares Rodrigues e viveu em França e na Bélgica, entre 1949 e 1955, ainda antes da sua estreia literária. O resto dos seus anos, passou-os na capital portuguesa.
«Flor discreta» da nossa literatura, como lhe chamou Agustina Bessa-Luís, a obra de Maria Judite de Carvalho foi várias vezes galardoada, destacando-se o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio da Crítica da Associação Portuguesa de Críticos Literários, o Prémio P.E.N. Clube Português de Novelística e o Prémio Vergílio Ferreira.

Os pais viviam na Bélgica e, desde os três meses de idade, foi criada e educada por tias paternas, num meio austero e de extrema contenção. Aos quatro anos morreu-lhe uma das tias, aos oito a mãe, que mal conheceu e, pouco depois, o meio irmão, pelo lado materno. Tinha ela dez anos, foi a vez de falecer uma outra tia e, com quinze anos, o pai, que continuara a viver na Bélgica, foi dado como desaparecido.

Maria Judite de Carvalhoentrara no Colégio Feminino Francês com catorze anos e, concluído o secundário no Liceu Maria Amália, matriculou-se em Filologia Germânica na UL. Durante este tempo, fez duas amizades duradoiras, com Natália Nunes e Fernanda Botelho. Em 1944, conheceu Urbano Tavares Rodrigues, com quem casou em 1949. O casal seguiu de imediato para Montpellier, em França, onde ele fora colocado como leitor de Português. Aqui viveu três anos, e outros tantos em Paris. Entretanto, veio a Lisboa, em 1950, ter a sua única filha, que deixou ao cuidado dos avós paternos.

Quando regressou a Portugal, foi trabalhar para a revista Eva, primeiro enquanto secretária, depois como redatora e chefe de redação. Esta revista publicara-lhe já, em 1949, o seu primeiro conto e, desde 1953, as «Crónicas de Paris», tendo continuado a colaborar nela até 1974, altura em que a revista faliu. Foi em 1968 que ingressou no Diário de Lisboa, com as funções de redatora, continuando a publicar as suas crónicas até à idade da reforma, em 1986. Em simultâneo, a partir de 1978, O Jornal recebeu também a cooperação da escritora, sempre sob a forma de crónicas, que seriam reunidas no volume Este Tempo, editado em 1991, galardoado com o Prémio da Crónica A. P. E.

O escritor Cardoso Pires, que foi diretor-adjunto do Diário de Lisboa, recordou-a, entre 1975-76, nestes termos: «... não participava em nada... Sentava-se ali como quem ia à repartição... Não conheci uma única pessoa com quem se desse. Só uma vez a vi alegre.» Arrastava um ar tristíssimo, como de exilada, que Natália Nunes, no entanto, explicou: «Havia nela uma exuberância vital mas completamente recalcada», e a sua austeridade quase monacal impedia-a de falar de si, manifestando uma enorme dificuldade em lidar com a vida. Quanto ao próprio Urbano, este adiantou: «Vivia como espetadora, sempre cética e desencantada... Uma dor funda sempre a acompanhou, tendo atingido os limites do sofrimento, nos últimos anos da sua vida, devido à deformação física ocasionada pela doença.»

Será impossível não relacionarmos todas estas informações com o mundo ficcional que a escritora nos deixou: os conteúdos das suas histórias, as características das suas personagens e os específicos objetos evocados, pois quase podemos adivinhar as sucessivas etapas que transpôs e seus particulares estados de espírito, sobretudo a nível das atitudes afetivas que exterioriza perante a deterioração que deteta nas relações humanas e a que os recursos técnicos narrativos, de que se socorre, não podem ser alheios. A descrição do presente – momento disfórico do processo da escrita – servirá, normalmente, como charneira que lhe permite ir ao encontro do passado, daqueles pedaços vividos que se reportam quase exclusivamente a três períodos: o da infância, o dos seus catorze anos e o dos dezoito aos vinte anos. Serão essas memórias que lhe facultarão a expansão da sua anterioridade-interioridade, espécie fictícia de reviver ou recompor uma mais-valia: o que subsiste da sua morada de então.

Crónicas ou narrativas, os textos de Maria Judite de Carvalho discorrem fundamentalmente sobre casos humanos de solidão – predominantemente femininos – e sobre o desajustamento existencial que lhes é inerente no quadro do quotidiano social e num registo sentidamente amargo, ainda quando temperado pela ironia ou pela mordacidade. Foi nítida a apropriação final dos processos narrativos próprios do Novo-Romance, talvez necessariamente os mais adequados à expressão do estado de espírito geral da época, do ponto de vista político-social e, portanto, da própria A. A sua expressão, todavia, parece continuar a refletir-lhe o estado psíquico, ao escolher, agora, uma forma próxima da escrita do olhar – este bem diferente do modelo francês – com o natural discurso distendido, imageticamente rico, e a utilização de modalizadores tais como «na verdade», «de facto» e do «talvez», tão apropriados a um discorrer contemplativo, poético e distante, mas tão próximo das coisas, que só muito poucos souberam concretizar.

De entre outros depoimentos que contribuem para o conhecimento da personalidade e da obra de Maria Judite de Carvalho, destacam-se o dossier incluído em Letras e Letras, nº. 24, 1989 e, na sequência da sua morte, o JL: Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº. 712, de 28 de Janeiro de 1998, e a «Revista» do jornal Expresso, de 6 de Junho de 1998.

Bibliografia ativa:

Tanta gente, Mariana (contos), 1959 ; 2010

As palavras poupadas (contos), 1961 ; 1988

Paisagem sem barcos (contos), 1963 ; 1990

Os armários vazios (romance), 1966 ; 2011

O seu amor por Etel (contos), 1967

Flores ao telefone (contos), 1968

Os idólatras (contos), 1969

Tempo de mercês (romance), 1973

A janela fingida (contos), 1975

Mulher, 1976

O homem no arame. Textos publicados no Diário de Lisboa, entre 1970 e 1975, 1979

Além do quadro (contos), 1983

Este tempo (crónicas), 1991

Seta despedida (ficção), 1995 ; 1996

A flor que havia na água parada (poesia), 1998

Havemos de rir? (teatro), 1998 ; 2002

Diários de Emília Bravo (crónicas), 2002 ; 2018

Obras Completas de Maria Judite de Carvalho (…). Vários vols. , 2018 / 2019


Fonte: http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=9333