janeiro de 2022

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade (pseudónimo de José Fontinhas), cuja obra poética se encontra traduzida em diversas línguas (a seguir a Pessoa é o poeta português mais traduzido), nasceu a 19 de janeiro de 1923 numa aldeia da Beira Baixa. Em 1938, num encontro com António Botto, um amigo deste revela a Eugénio de Andrade a poesia de Fernando Pessoa, origem de um fascínio ilimitado. O conhecimento da literatura do autor da Mensagem será determinante para a afirmação de um estilo individual numa direção oposta à poética pessoana, naquilo em que esta se mostra distanciada da exaltação do sensualismo, da afirmação da corporalidade — vetores decisivos no trajeto poético de Eugénio de Andrade. Em 1942, dedicará o seu primeiro livro à memória de Pessoa. Outra influência marcante será a poesia de Camilo Pessanha. Este autor encarna o papel de mestre, sintetizando algumas das linhas idealisticamente perseguidas na poética eugeniana, como a musicalidade e a aguda consciência de que a poesia é ofício de artesão.

No ano de 1939, incitado por António Botto, publicou uma plaqueta intitulada Narciso, o seu primeiro poema, ainda com o nome civil (José Fontinhas). Três anos depois é dado à estampa o primeiro livro, Adolescente (já com o pseudónimo), que, apesar de ter sido bem acolhido por algumas notas críticas na imprensa, seria posteriormente, por razões de ordem estética, renegado pelo autor. Esta posição estender-se-á ao seu segundo livro, Pureza, publicado em 1945. Bastante mais tarde, em 1977, numa edição de conjunto da sua obra, resgatará dez poemas daqueles dois livros, reunindo-os sob o título de Primeiros Poemas.
Em 1943, Eugénio de Andrade instalou-se em Coimbra. Tornou-se amigo de Afonso Duarte, Carlos de Oliveira, Eduardo Lourenço e Miguel Torga. E m 1946, publicou uma Antologia Poética de García Lorca. Regressou a Lisboa no final desse mesmo ano e, em 1947, ingressou no funcionalismo público. Publicou em 1948 aquele que viria a ser o seu livro de consagração e o mais reeditado dos seus textos: As Mãos e os Frutos. Por essa altura, fez amizade e convive com outros poetas como Mário Cesariny e Sophia de Mello Breyner Andresen. Fixou residência no Porto, em 1950, onde passou a desempenhar as funções de inspetor dos Serviços Médico-Sociais, até 1983, quando se reformou. Em 1956, morreu a mãe, figura central na sua poesia, em cuja memória publicou, dois anos depois, o livro Coração do Dia. Datam dos anos 50 os contactos pessoais com alguns poetas espanhóis da geração de 27 e a amizade com Teixeira de Pascoaes e Jorge de Sena. Além dos títulos já mencionados, publicou As Palavras Interditas, em 1951; Até Amanhã, em 1956, e Mar de Setembro, em 1961.
É de assinalar um grande interregno na sua produção poética após a publicação de Ostinato Rigore (1964). Só no final de 1971 deu à estampa novo volume de poemas: Obscuro Domínio. A interrupção é importante do ponto de vista da linha evolutiva da obra: trata-se de um momento fulcral no sentido de uma viragem que resulta na amplificação da regularidade que vai de As Mãos e os Frutos até Ostinato Rigore, em concreto ao nível das gamas lexicais e semânticas. A partir daqui, retomou o ritmo regular que vinha imprimindo à sua obra.

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Numa segunda fase, continuam a encontrar-se momentos tão diferentes como quando se confronta Véspera da Água (1973) com Limiar dos Pássaros, publicado em 1976. Este livro configura, no conjunto da produção poética de Eugénio de Andrade, uma espécie de nó onde se entrelaçam os principais núcleos de ressonância autobiográfica, texto denso do mais radical e perturbante olhar sobre esses núcleos. Outros livros apresentam assinaláveis marcas diferenciadoras dentro da continuidade estilística, podendo alguns deles ser aproximados por afinidades de diversa ordem, nomeadamente estruturais, caso de Memória doutro Rio (1978) e de Vertentes do Olhar (1987), onde ocorre uma comum matriz de narrativização dos poemas em prosa. Matéria Solar (1980) é um livro cujo metaforismo fulgurante se encontra próximo da equilibrada expressão de apaziguamento que irradia em Branco no Branco (1984). E se em O Peso da Sombra (1982) se manifesta a melancolia e a aguda consciência da passagem do tempo com seus efeitos sobre o corpo, a partir de O Outro Nome da Terra (1988) e Rente ao Dizer (1992) depara-se com um progressivo caminhar para o despojamento da expressão, aliado a uma atenção sábia às pequenas coisas da vida, às fulgurações da palavra, à cintilação das sílabas.
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Os últimos livros (Ofício de Paciência, 1994; O Sal da Língua, 1995; Pequeno Formato, 1997; Os Lugares do Lume, 1998; Os Sulcos da Sede, 2001) vêm confirmar a busca incessante de uma linguagem transparente face à pulsação do real quotidiano.
Em 1974, publicou Escrita da Terra e Outros Epitáfios, livro que foi sendo continuamente ampliado, ao longo dos anos, até ao seu desdobramento em volumes diferenciados (Escrita da Terra, 5ª edição, 1983; Homenagens e Outros Epitáfios, 8ª edição, 1993).


Eugénio de Andrade revela-se igualmente um notável prosador. Publicou três livros em prosa: Rosto Precário (1979), Os Afluentes do Silêncio (1968), À Sombra da Memória (1993). No primeiro, para além das poéticas explícitas, incorpora um conjunto de entrevistas apuradamente reescritas numa direção que, como afirma Vasco Graça Moura, permite “organizar uma matriz para os traços possíveis de um retrato do escritor, espécie de Narciso espelhando-se complacentemente na pose da sua própria arte poética e na sua oficina”. Nos outros dois livros encontramos textos sobre poetas, prosadores, pintores, escultores, arquitetos, fotógrafos, músicos, sobre as cidades e regiões que conheceu bem. Todas as observações e leituras surgem impregnadas da vivência autobiográfica e em praticamente todos esses textos encontramos traços que espelham a própria poética autoral.

Em 1976, Eugénio de Andrade publicou História da Égua Branca, uma narrativa para crianças onde se podem encontrar traços que permitem falar de um diálogo com a obra poética. Essa sintonia torna a acontecer com o livro Aquela Nuvem e Outras (1986), pequeno volume que agrupa um conjunto de poemas dedicados ao afilhado, Miguel, que foram sendo escritos à medida que este ia crescendo.

No domínio da tradução, a sua bibliografia inclui poemas e textos dramáticos de Lorca, uma tradução das Cartas Portuguesas atribuídas a Mariana Alcoforado, uma edição de Poemas e Fragmentos de Safo e um livro com o título: Trocar de Rosa, que reúne traduções de poetas contemporâneos.

O poeta organizou também diversas antologias, muitas delas de considerável êxito editorial, como foi o caso da Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, publicada em 1999; na fase final, organizou outra antologia panorâmica: Poemas Portugueses para a Juventude, publicada no ano de 2002. Assinalem-se também as recolhas de poemas de autores canónicos reunidos nos seguintes volumes: Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, 1972; Fernando Pessoa, Poesias Escolhidas, 1995; Sonetos de Luís de Camões, 2000. Em torno da poesia erótica portuguesa organizou: Variações sobre um Corpo (1972) e Eros de PassagemPoesia Erótica Contemporânea (1982). Outro domínio de incidência dos volumes antológicos organizados por Eugénio de Andrade é o das recolhas de textos literários sobre cidades e regiões, como por exemplo: Daqui Houve Nome Portugal (1968), antologia consagrada ao Porto; Memórias de Alegria (1971), antologia que reúne textos sobre Coimbra; ou ainda Alentejo não tem Sombra: Antologia de Poesia Contemporânea sobre o Alentejo (1982). Para além destas recolhas, o poeta organizou algumas antologias com textos seus: Antologia Breve, 1972 (com sucessivas reedições atualizadas); A Cidade de Garrett, 1993; Chuva sobre o rosto, 1976; Coração Habitado, 1983; Com o Sol em cada Sílaba, 1991; Os Dóceis Animais, 2003.

Em 1994, deixou a exígua morada na Rua Duque de Palmela, onde viveu durante décadas, e passou a viver numa casa, apoiada pela Câmara do Porto, onde funciona uma Fundação com o seu nome. Foi nesta casa, no Passeio Alegre, na Foz do Douro, que faleceu em 13 de junho de 2005.

Eugénio de Andrade sagrou-se à poesia como uma espécie de monge que vê no poema a via da redenção. Afabilidade e rudeza, ascetismo e hedonismo nele coabitam sem qualquer espécie de tensão. O encanto desta poesia capaz de suscitar uma emoção tão viva provém em grande medida da extraordinária harmonia (“aliança primogénita entre a palavra e a música”) encontrada no corpo do poema. Torna real o símile da corporalidade, tornando a língua mais maleável.
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Bibliografia Ativa

Poesia:

As Mãos e os Frutos (1948)
Os Amantes sem Dinheiro (1950)
As Palavras Interditas (1951)
Até Amanhã (1956)
Coração do Dia (1958)
Mar de Setembro (1961)
Ostinato Rigore (1964)
Obscuro Domínio (1971)
Véspera da Água (1973)
Escrita da Terra e Outros Epitáfios (1974)
Limiar dos Pássaros (1976)
Memória doutro Rio (1978)
Matéria Solar (1980)
O Peso da Sombra (1982)
Branco no Branco (1984)
Vertentes do Olhar (1987)
Outro Nome da Terra (1988)
Rente ao Dizer (1992)
Ofício de Paciência (1994)
O Sal da Língua (1995)
Pequeno Formato (1997)
Os Lugares do Lume (1998)
Os Sulcos da Sede (2001)


Livros para crianças:

História da Égua Branca (1977)
Aquela Nuvem e Outras (1986)


Livros de Prosa

Os Afluentes do Silêncio (1968)
Rosto Precário (1979)
À Sombra da Memória (1993


Traduções

Poemas de Garcia Lorca (1946)
Cartas Portuguesas, atribuídas a Mariana Alcoforado (1969)
Poemas e Fragmentos de Safo (1974)
Trocar de Rosa (1980)


Antologias

Daqui Houve Nome Portugal (1968)
Memórias de Alegria (1971)
Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões (1972)
Antologia Breve (1972)
Variações sobre um Corpo (1972)
Chuva sobre o Rosto (1976)
Eros de Passagem. Poesia Erótica Contemporânea (1982)
Alentejo não tem Sombra: Antologia de Poesia Contemporânea sobre o Alentejo (1982).
Coração Habitado (1983)
Com o Sol em cada Sílaba (1991)
A Cidade de Garrett (1993)
Fernando Pessoa, Poesias Escolhidas (1995)
Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa (1999)
Sonetos de Luís de Camões (2000)
Poemas Portugueses para a Juventude (2002)
Os Dóceis Animais (2003)

 

Fonte: http://cvc.instituto-camoes.pt/seculo-xx/eugenio-de-andrade-14854.html#.YeAJj_7P2Hs