junho de 2020

David Mourão Ferreira

Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico literário, dramaturgo, tradutor e professor universitário, David Mourão Ferreira nasceu a 24 de fevereiro de 1927, em Lisboa, cidade onde faleceu a 16 de junho de 1996.

Depois de frequentar o Colégio Moderno, licenciou-se em Filologia Românica, em 1951, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, aí tendo tido como mestres várias personalidades da cultura portuguesa contemporânea de quem foi amigo e que muito o marcaram na sua formação pessoal e académica.

Enquanto estudante, participou no MUD Juvenil, travou conhecimento com José Régio, António Manuel Couto Viana e Fernanda Botelho, como ator e como autor teve atividade no Teatro-Estúdio do Salitre, publicou os seus primeiros ensaios, designadamente nas revistas Seara Nova e Ocidente, dirigiu as folhas de poesia Távola Redonda (1950) e publicou o seu primeiro volume de poesia, A Secreta Viagem.

Foi professor na Escola Comercial Veiga Beirão e no Liceu Pedro Nunes, ao mesmo tempo que continuava a publicar ensaios ou poemas naquelas e noutras revistas, como Árvore (1951), Tetracórnio (1951) ou Graal (1956). Com novos títulos começava a afirmar-se, sobretudo, como poeta e participou de forma ativa na vida literária portuguesa, através da intervenção crítica, mais ou menos polémica, ou da divulgação de poetas da sua geração e das gerações anteriores. Neste campo, escreveu inúmeros ensaios e proferiu numerosas palestras e deu ao Dicionário de Literatura (1960 e 1969-1971), dirigido por Jacinto do Prado Coelho, valiosa e diversificada colaboração desde temas e autores clássicos aos seus contemporâneos.

Entre 1957 e 1963, foi assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi readmitido, como professor auxiliar, em 1970. Aí, marcou várias gerações de estudantes na regência das cadeiras de Teoria da Literatura e de Literatura Portuguesa.

A par da atividade docente, que a partir de então só interromperia durante o exercício de funções governativas – como secretário de Estado da Cultura no VI Governo Provisório (1976) e nos I (1976-77) e IV (1979) Governos Constitucionais –David Mourão-Ferreira desdobrou-se entre vários modos de intervenção pública e digressões pela Europa em busca das suas mais profundas e naturais referências culturais – destacando-se o reincidente regresso a Itália e à Grécia.

O ano de 1969 marcou o início do programa televisivo «Imagens da Poesia Europeia», infelizmente só em parte publicado na forma de livro, mas onde um sensível trabalho de tradutor não é componente menor do trabalho de divulgação e sensibilização para a poesia que confirma a vocação comunicativa e a correção pedagógica já anteriormente afirmadas no programa radiofónico «Música e Poesia» e em «Hospital das Letras», também da RTP, ambos em 1964.

Em 1969, foi publicada a tradução, em colaboração com Natália Correia, de Arte de Amar, de Ovídio, obra que também prefaciou. Foi profícua a sua atividade de conferencista, contando-se Valery Larbaud, Teixeira Gomes, Vitorino Nemésio, Thomas Mann, Rainer Maria Rilke, Cecília Meireles, Fernando Pessoa e os poetas da Presença entre os autores que mais atentamente estudou, num gosto de intervir cultural e socialmente nem sempre pacífico para o cordato professor-poeta: subscreveu, em 1966, o texto de apresentação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia e, pouco antes de abril de 1974, depôs a favor de Maria Teresa Horta no processo que lhe foi movido pela publicação das Novas Cartas Portuguesas.

No âmbito da atividade de divulgador, é justo realçar, ainda, a colaboração dada a Portugal, a Terra e o Homem: Antologia de Textos de Escritores do Século XX (de que foi responsável pelas 1ª., 2ª. e 3ª. séries do 2º. volume, 1979-81) e a orientação, preocupada com um grande sentido pedagógico, que a partir de 1984 deu ao Boletim Cultural do Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian, serviço de que foi diretor a partir de 1981.

Em 1974-75, foi diretor do jornal A Capital e, logo a seguir, diretor-adjunto de O Dia, sob a direção de Vitorino Nemésio; entre 1984 e 1986, foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores, entre 1984 e 1992 foi vice-presidente da Association Internationale des Critiques Littéraires e, em 1991, presidente do Pen Club Português.

Os anos oitenta e noventa são de intensa atividade editorial e os que mais o premeiam: a As Quatro Estações foi, em 1980, atribuído o Prémio da Crítica da Association Internationale des Critiques Littéraires; a Um Amor Feliz – com diversas edições, entretanto – foram, em 1986, atribuídos o Prémio de Narrativa do Pen Club Português, o Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus (ex-aequo com Mário de Carvalho), o Prémio de Ficção Município de Lisboa e o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores; em 1988, Nos Passos de Pessoa recebe o Prémio Jacinto do Prado Coelho e a Obra Poética: 1948-1988 recebe o Grande Prémio Inasset de Poesia. Antes disso, já em 1954, tinha sido distinguido com o Prémio de Poesia Delfim Guimarães pelo livro Tempestade de Verão, em 1960 com o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa, por Gaivotas em Terra e, em 1972, com o Prémio Nacional de Poesia pelo Cancioneiro de Natal. Em 1976, foi distinguido no Brasil com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco. Já muito doente, em 1996, foi condecorado pelo primeiro-ministro português com a Grã-Cruz de Santiago de Espada.
(…)
Lisboa também é objeto do seu estudo enquanto tema literário, tendo contribuído muito para uma certa divulgação popular da sua poesia, ao constituir-se como letra de fados, alguns cantados por Amália, popularidade para que também concorreu a adaptação cinematográfica de duas novelas do livro Gaivotas em Terra, «Agora o Fado Corrido» (realização de Jorge Brun do Canto) e «E aos Costumes Disse Nada» (este filme, de José Fonseca e Costa, tem o título «Sem Sombra de Pecado»), bem como de Um Amor Feliz a filme televisivo, no qual, aliás, também participa como ator.

Ao publicar nos últimos anos de vida recolhas poéticas de inequívoca tematização do erotismo (O Corpo Iluminado e Música de Cama), David Mourão-Ferreira expôs-se a análises injustamente redutoras da sua obra poética. E, no entanto, parece tão fácil reconhecer que, nessa escrita, ora lúdica, ora dramática, Das sílabas a espátula/ começa pouco a pouco/ a modelar-te em alma/ o que era apenas corpo/ [ ...] e O que era apenas alma/ volve-se agora corpo («Corpoema»), tão insignificante é do ponto de vista poético a diferença.

Um Monumento de Palavras (1996) é, simultaneamente, a reconstituição de um percurso íntimo e o testamento poético, numa curiosa cronologia sentimental que, já elegíaca, mas lúcida, tranquilamente se enuncia e antologicamente se organiza em registo sonoro pela voz do Poeta.

Poucas vezes um escritor terá visto a sua morte tão publicamente anunciada, tão mediática, mas sinceramente, chorada.

Fonte: Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998